A alimentação que nos liga e que nos separa
por João Almeida, Consultor em Sustentabilidade Alimentar

Como a música nos liga, independentemente da língua mas dependendo da melodia, o que comemos tem exatamente o mesmo potencial, se não até maior, de nos ligar e juntar enquanto família, região, país, enquanto habitantes do planeta. E assim como queremos que a música não seja apenas uma melodia mas também que nos traga uma mensagem de amor, de esperança ou uma estória, queremos também que a nossa alimentação não seja só sabor, mas também saber. Alimentação que nos deixe saudáveis, diga algo sobre nós e que tenha um impacto positivo em nós, nos que nos rodeiam e no planeta que habitamos.

Do que não nos lembramos, porque nos fomos esquecendo, é que tradicionalmente, em Portugal e no mundo, só de vez em quando se comia carne e peixe, desperdiçava-se muito pouco e havia pouca diversidade. Os alimentos eram maioritariamente regionais ou vinham da quinta dos avós na aldeia, e produtos industriais eram uma miragem. Comer carne era uma exceção, acontecia quando alguém fazia anos ou em celebrações religiosas (por isso o borrego era morto na Páscoa e os mais abastados podiam comer polvo ou bacalhau no Natal). Hoje em dia as antigas receitas de festa são as nossas refeições do quotidiano. Se não comermos bacalhau com natas ou um bife de trezentas gramas ao almoço, pensamos que não ficámos saciados, achamos que “falta alguma coisa”.

Ainda bem que temos hoje em dia esta abundância, que podemos escolher, que já (quase) não se passa fome em Portugal e na maior parte dos países do mundo. Contudo, temos de tratar este privilégio exatamente como um privilégio, ou seja, reconhecendo que é um estatuto especial que atingimos, um momento da história delicado que pode ser efémero... Se não mudarmos os nossos hábitos alimentares rapidamente, antes mesmo de estes se tornarem uma nova “tradição”, continuaremos não só a acelerar os problemas de saúde ligados à alimentação como avançaremos velozmente para a destruição do meio ambiente.

É deveras difícil entender o impacto que a nossa alimentação tem no planeta. As prateleiras dos mercados estão sempre cheias, há fila à porta das steakhouses, temos à distância de um click a cozinha do mundo trazida à porta de casa… E isto parece ser pacífico - porque nos haveríamos de preocupar? A verdade é que o diabo muitas vezes se esconde na normalidade, tentando apaziguar o nosso sentido crítico, impedindo-nos de ver para além do “business as usual”. É muito mais fácil perceber o problema do plástico marinho: há plástico que não se degrada; há mar com animais que não se dão bem com o plástico. E como um mais um igual a dois, estamos todos de acordo: plástico em demasia é mau. Todos entendem com poucas palavras (ou quase todos, enfim).

Porém, quando falamos de alimentação, as implicações são mais difíceis de comunicar e compreender. Sobretudo nas duas matérias mais importantes: o consumo de produtos animais e o desperdício alimentar. Mas, antes de lá chegarmos, vamos subir num balão às nuvens para conseguirmos olhar para baixo e ter uma perspetiva mais global.

Fotos: Juhi King (Pixabay) e ilovebutter (Flickr)

De acordo com estatísticas mundiais sobre utilização dos solos, metade (50%) das zonas habitáveis da terra são utilizadas para a produção agrícola. Da outra metade, 37% são florestas, 11% prados, 1% rios e lagos e os restantes 1% zonas urbanas incluindo cidades, vilas, estradas e outras infraestruturas – provavelmente não estava à espera destas relações? Da área agrícola, 23% é utilizada para produção de plantas que, através do seu consumo direto, nos fornecem 83% das calorias ou 63% das proteínas da nossa alimentação... Os outros 77% são utilizados para, indiretamente (através da capacidade transformativa da produção animal), produzir carne e laticínios (este valor incluindo pastagens e produção de rações). Ou seja: mais de três quartos dos solos fornecem menos de um quinto (18%) das calorias que utilizamos na alimentação global (ou o correspondente a 37% das proteínas). Estamos a ocupar demasiada terra para a produção de produtos animais, muito mais ineficientes no fornecimento de calorias e proteínas do que a alternativa vegetal. Assim se entende que, sendo a superfície agrícola limitada e sendo a soja para ração animal uma cultura muito lucrativa, os fazendeiros no Brasil prefiram fazer queimadas na Amazónia do que ter floresta tropical autóctone, para eles supostamente não-produtiva.

Sabendo que existem milhares de plantas comestíveis na terra, é significativo que a maior parte da superfície agrícola terrestre esteja ocupada com a produção de apenas cerca de 20 tipos de plantas: soja, trigo e outros cereais, milho, arroz, cana de açúcar e beterraba sacarina, óleo de palma, batata, banana, mandioca, algodão e sementes de girassol. Na sua grande maioria estas plantas são produzidas para a alimentação animal. A maior parte provém de sementes geneticamente modificadas (contribuindo para a redução da diversidade genética antes existente nas sementes mundiais) e conta com a ajuda de pesticidas (herbicidas, inseticidas, fungicidas) e de fertilizantes químicos provenientes de fontes não renováveis (nitrogénio, fosfato e potássio).

As dimensões do nosso planeta e por consequência destas estatísticas são tão grandes, tão desafiantes para a nossa capacidade de compreensão, que nos é difícil perceber o real impacto que a produção de carne, leite, ovos e mesmo peixe tem no planeta Terra.

Vamos parar para respirar…

Para podermos passar agora para a segunda maior causa de impacto da nossa alimentação no ambiente: o desperdício alimentar. Mas continuemos no balão, cá em cima. E olhemos para baixo para os tais agricultores do tamanho de formigas a trabalhar, para os vários hectares de terra agrícola a perder de vista, com cereais, tubérculos, frutos, hortícolas, plantas oleaginosas, pastagens para animais, etc. Agora imaginemos que, de toda essa produção, sejam plantas para consumo humano direto ou carne, leite, peixe... um terço, 33%, de toda a produção é perdida ou desperdiçada em toda a cadeia alimentar. Repito, um terço de toda a produção é hoje em dia desperdiçada e não chega à boca de ninguém! O que perfaz, de acordo com a FAO, 1,3 mil milhões de toneladas por ano. Números tão grandes que se tornam inimagináveis para a nossa condição humana.

 

É importante ter em conta que as razões deste desperdício vão desde acidentes no transporte logístico até às refeições com doses demasiado grandes que os clientes de um restaurante não conseguem comer até ao fim, passando por perdas devido à produção excessiva de alimentos perecíveis. Porém, e descendo agora do balão para entrar nas cozinhas dos países desenvolvidos como Portugal, cerca de metade de todo o desperdício acontece nas nossas casas. Quer seja por termos comprado em demasia, por nos termos esquecido dos vegetais na gaveta do frigorífico, porque não nos apeteceu…

Qual o maior impeditivo para que esta situação se altere? Que as pessoas não reconheçam que grão a grão se enche o caixote do lixo e que, mesmo não parecendo, desperdiçamos diariamente nas nossas casas vários quilogramas de alimentos que seriam perfeitamente edíveis. Serão, no final de um ano, várias centenas senão milhares de quilogramas de comida desperdiçada por cada família. E imagine quantos euros não vão também para o caixote.

Espero que a este ponto na leitura estejamos todos de acordo: muita coisa na nossa alimentação e por consequência no sistema alimentar terá de mudar. E só faz sentido se formos todos a agir. O argumento “se queres comer menos carne é lá contigo”, deixa de fazer sentido. Temos de ser todos a comer menos produtos animais e a ser mais criativos com a grande variedade de plantas comestíveis que existe. Temos de ser todos a consumir produtos mais diversos, de origem biológica, e a ser mais eficientes nas nossas cozinhas. Se forem só alguns, a corrida está perdida.